quarta-feira, 2 de maio de 2012

Azião


Azião
A passada semana não houve “cantinho”. A semana ficou marcada por a deslocação a Bilbau e caramba, entre festas e viagens, também por vezes temos de trabalhar um bocado, vá-se lá saber porquê. Mas pronto, entre aventuras para comprar bilhete, até às peripécias para alugar uma carrinha, pelas 5 da manhã saímos de Beja. 900 kms esperavam-nos, movidos por aquela fé inabalável que nos faz correr, rir, chorar e delirar. Movidos também pelas geleiras que iam cheias e que à entrada na fronteira já estavam duas vazias, lá seguimos, rindo e cantando penetrando por essa Espanha acima… A chegada fez-nos lembrar Portugal no ano de Scolari: janelas ornamentadas com bandeiras, montras decoradas a preceito, eles de cachecóis ao pescoço, elas de calças de gangas bem justas a fazerem-nos querer conviver saudavelmente antes do jogo. Bilbau mostrou ser uma terra que vive e respira futebol. Onde as pessoas se preocupam em ser simpáticas, onde sorriem à nossa passagem, acenam ao nosso contacto, conversam acerca de futebol. Andar na zona do San Mamés nas horas que precedem um jogo é uma experiência para quem gosta de bola a não perder. Ou a experimentar um dia. Os copos jorravam entre 2 dedos de conversa, os cânticos saiam de forma natural, o convívio com os bascos faziam-nos sentir em ambiente de final. Uma lição de civismo por parte de um povo que historicamente tem um passado de luta, mas que identifica e separa perfeitamente quem são os inimigos e os visitantes. A entrada no estádio foi feita de forma calma, mas em 30 anos de bola foi a 1ª vez que me descalcei à entrada de um estádio de futebol. Polícia de intervenção tranquila, stewarts com uma sobranceria e falta de simpatia brutais, a pedirem sopapinhos nos cornos e abraços de cotovelos em riste. Contudo, a fila de capacetes à nossa volta com as gorras de assaltantes de bancos enfiadas na cara faziam-nos perder qualquer ideia de “amizade mais chegada” com os senhores do colete verde florescente, famosos por serem reforços de inverno de alguns clubes nos túneis dos estádios e decidirem campeonatos. Adiante. O sector leonino era ao nível do velhinho Vidal Pinheiro. Com uma rede de galinheiro à frente, daquelas que por vezes ardem, e que nos fizeram sentir como prisioneiros em Alcatraz. Mas a curva estava ao rubro. Um apoio incessante, que fez com que os bascos tivessem confidenciado que fomos a melhor “afición” que passou por La Catedral nos últimos largos anos. O jogo já sabemos. Um senhor chamado LLorente tratou de nos dizimar. O golo do mal-amado Ricky, que voltou a decidir esta semana (e que leva mais golos na 1ª época em Portugal que Liedson no 1º ano, para já não falar no 1º ano de Acosta, os 2 que a par de Super Mário marcaram de forma inequívoca a diferença dos últimos 9s que passaram por Alvalade) fez-nos sonhar! Mas a 2ª parte trouxe uma azia daquelas difíceis de digerir, e que nos marcará nos próximos tempos. Uma final europeia é uma final. Estivemos bem perto. Ali ao alcance de uma mão. No final do jogo tivemos de comer a festa dos bascos. Uma festa bonita para eles, mas que até aí marcou algo que não vemos por cá. Quando ganhamos, e por muito que respeitemos o adversário, festejamos de forma mais “agressiva”, gostamos de fazer uma “touradinha aos cabeçudos”, gritamos à sua volta e de forma genuína temos aquele sentimento de “embrulha e vai para casa”. Em Bilbau, no meio de uma festa impressionante, houve tempo para nos darem os sentimentos. Houve respeito para, à nossa passagem, se gritar Sporting e de forma sincera, quase se deixar de festejar para confortar os adeptos que, a partir desta semana, ficarão umbilicalmente ligados, ou não fossemos todos “leones”. Mas o azião foi grande. Eu quero que se lixe o ambiente. Eu estou-me nas tintas para a recepção! Eu preferia estar a contar nesta altura que tive de fugir à frente de adeptos erectos que se quase me apanhavam (quase, atenção!), que no hotel me tinham tirado os colchões e as almofadas, e que as imperiais afinal tinham purgante que nos fizeram parar de meia em meia hora. Mas não. Fica o registo de 2 dias bem passados, com o último meio dia em registo de cortejo fúnebre. No regresso à nossa santa terra, ganhámos à Académica e a Champions está a uma mão. Na era Sá Pinto, apenas perdemos 6 pontos: Setúbal, onde falhámos um penalti, e Barcelos, com Bruno Paixão. Curioso não é? Podíamos nesta altura estar a lutar, ainda, pelo acesso directo à liga dos campeões. Para o que falta, apenas espero que o campeonato não acabe da mesma forma que começou, com o Sporting a ser encostado por coisas. Coisas que por vezes se passam, e esta época não foi excepção, ao nosso Sporting, em datas específicas. Vamos acreditar!

Cajó

2 comentários:

  1. Gostei muito da descrição dessa meia final, foi suberba!!! Abraço Grande Cajó!!!

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  2. Não sou sportinguista mas li a crónica com o agrado que um bom texto me proporciona. Passei por situações semelhantes de um gratificante convívio com adversários. Lembro-me de adeptos do Chelsea, do Celtic e dos 2 clubes de Sevilha. Uma outra mentalidade sem dúvida. Relembrei tudo isso, as horas de espera por um bilhete, as viagens animadas pra lá e as cansativas de volta fosse qual fosse o resultado. Lembrei-me dos meus amigos, companheiros de jornada que ficarão sempre marcados com aquela cumplicidade própria de quem viveu junto tudo isso. Por tudo isso, obrigado por este fantástico texto. Abraço Carlos.

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